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Mostra no MoMA celebra o desenho das cadeiras modernistas

Elas foram símbolo de mudanças no Brasil e em toda a América Latina

Por Simone Blanes – 13 abr 2024, 08h00

fonte: https://veja.abril.com.br/comportamento/mostra-no-moma-celebra-o-desenho-das-cadeiras-modernistas

CORES E FORMAS - O modelo ‘Bowl’, da italiana radicada no Brasil Lina Bo Bardi, de 1951: plástico e espuma (./Divulgação)

Sente-se e leia com calma o que vem a seguir, porque as cadeiras são um modo de entender o
caminhar da civilização — servem de gatilho para traduzir a explosão do novo, o ritmo das escolas de arquitetura, o permanente atrito entre o que parece ter ficado no passado e o que se desenha para o futuro. Uma extraordinária exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA — Crafting Modernity: Design in Latin America, 1940-1980 —, é um convite, até meados de setembro, para conhecer o cotidiano doméstico, como quem se aboleta em cima de quatro pés, de lares de famílias da Argentina, Chile, Colômbia, México, Venezuela e Brasil, é claro. É o recorte histórico de um tempo fascinante, de grandes transformações. Um período, no pós-guerra, de industrialização, de troca dos importados pelos produtos locais, de descoberta de materiais inovadores. Nas salas da mostra há também mesas, camas, armários, pôsteres e fotografias, a vida como ela era, e cujos ecos ainda nos assombram com elegância — mas nada tira o centro das atenções das cadeiras e poltronas, insista-se. E os outros objetos que se virem para conquistar alguma relevância.

Mas por que as cadeiras? O filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) tinha uma pista. Para
ele, os assentos são as peças que mais retratam as relações humanas, a conversa, a sociabilidade, o ambiente. “A configuração do mobiliário é uma imagem fiel das estruturas familiares e sociais de uma época”, escreveu. As cadeiras servem para tudo — inclusive para sentar, em casamento de
forma e função, na celebrada fórmula intuída pelo arquiteto americano Louis Sullivan (1856-
1924). Já não bastava postar-se ereto, como sugeriam os tradicionais e formais modelos de
influência europeia — o moderno pedia leveza, beleza e produção em grande escala. Os
exemplares do MoMA são como um manifesto cultural — e, por que não, político. Ninguém
melhor do que a arquiteta italiana radicada no Brasil, Lina Bo Bardi (1914-1992), para costurar a
prosa. Ela é um dos destaques do evento — tido como um dos mais interessantes de Nova York,
agora.

VIRADA – Os assentos de Sérgio Rodrigues (à esq.), Paulo Mendes da Rocha (à dir.) e Martin Eisler: adeus ao antigo rococó (Fotos/Divulgação)

Lina aparece com duas peças — a Bowl, de 1951, tigela de plástico e espuma, e o Tripé de
Ferro, de 1958, além de imagens da Casa de Vidro, sua residência em São Paulo (dá para
visitá-la). Não é preciso esforço para perceber o espanto provocado por aqueles desenhos nos
idos dos anos 1950, de rompimento com o classicismo rococó que vigorava, como quem
transformava Ouro Preto em Brasília enquanto João Gilberto dedilhava no violão, dizendo
“chega de saudade” de mãos dadas com Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Uma frase de Lina
resume a ideia: “Temos essa convicção, e estamos persuadidos, de que uma cadeira caipira de
grumixaba e tábua é mais moral e importante do que um divã de babados de estilo francês”. É.

Para um brasileiro, a Crafting Modernity é passeio histórico e nostálgico. Há Lina, para quem
“inventamos a arquitetura apenas subindo uma escada, atravessando uma sala, abrindo uma
porta ou sentando numa cadeira”, mas há muito mais. O arquiteto Paulo Mendes da Rocha
(1918-2021) tem lá a icônica Paulistano. Sérgio Rodrigues (1927-2014) desponta com
a Cadeira Mole e a Niemeyer, homenagem às curvas sensuais e elegantes do criador de Brasília
ao lado de Lúcio Costa. Martin Eisler (1913-1977), austríaco radicado no Brasil, é
representado pela Costela de Adão. Não poderia faltar a namoradeira de Zanine Caldas (1919-
2001), esculpida em um tronco de árvore, incentivo ao bate-papo “apertado assim, colado
assim, calado assim / abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim”.

É interessante perceber agora, olhando para a coleção, um capítulo da civilização que nos trouxe até aqui. “O design era a arte do futuro porque trazia elementos artísticos aliados a uma fabricação em maior escala” diz o historiador Jayme Vargas, coautor do livro Horizonte Ampliado (Editora Olhares). Não por acaso, muitas das cadeiras podem ainda hoje ser vistas em casas e consultórios. “Era a arte mais acessível e democratizada para um número maior de pessoas”, afirma Vargas. Na imprensa americana, o contato com os móveis latino-americanos tem o dom de uma descoberta. Há quem a compare ao susto dos anos 1960, quando os americanos foram apresentados aos desenhos do dinamarquês Arne Jacobsen (1902-1971) e do americano
Charles Eames (1907-1978), criadores de assentos que brotam hoje em qualquer botequim pé-sujo, mas que representaram uma revolução. “Não consigo me lembrar da última vez que cobicei tantas cadeiras lindas”, escreveu Michael Kimmelman, crítico de arquitetura, para o The New York Times.
As descobertas tardias — para quem não cresceu pelas bandas de cá — merecem celebração. “As cadeiras produzem memórias afetivas e contam frações de um tempo para as futuras gerações”, diz Jader Almeida, premiado designer e arquiteto brasileiro. Ah, como sentávamos bonito, e assim
traduzíamos o Brasil.