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Eles são os homens de bem

Seguidores sinceros de Bolsonaro se confundem com os Brazão, Queiroz,
Lessa e outros elementos

17 abr 2024 às 8h00

Quem conhece o teatro, romances e contos de Nelson Rodrigues sabe que seus
personagens são uma galeria de adúlteros, incestuosos, assediadores, assassinos,
suicidas e outros graves transgressores das normas de convívio. Por causa disso,
Nelson foi censurado, teve peças e livros proibidos, sofreu ameaças físicas e foi
chamado de tarado e pornográfico. Quem são esses personagens? Marginais,
presidiários, prostitutas, pobres, destituídos, aqueles de quem a sociedade espera
esses “desvios”?

Não. Os tarados de Nelson são advogados, juízes, médicos, políticos, padres, pais de
família, até mães de família. Todos “homens de bem” —inatacáveis, detentores do
monopólio das virtudes, aqueles sobre quem não resta a menor dúvida. Daí Nelson
botar na boca de alguém em seu romance “Asfalto Selvagem”: “O homem de bem é
um cadáver mal-informado. Não sabe que já morreu”.
Nelson pode ter se enganado. O “homem de bem” ainda é uma realidade. Ele tem
um “nome a zelar”: venceu na vida, é casado, fiel, não tem filhos gays, é sócio de
clubes, paga o que deve em dia, vai à Disney com a família, é patriota, religioso e fã
de cantores sertanejos.
Talvez não por acaso, seu reduto seja a extrema direita. Certifiquei-me disso outro
dia num livro de 1933 do jornalista António Ferro, de loas ao então ditador luso
Salazar. É dedicado “aos portugueses de boa-fé e boa vontade” —o que os tornava
cúmplices das perseguições, prisões e tortura a que Salazar submetia os opositores.
“Homens de bem”, ou que assim se consideram, são também os seguidores sinceros
de Bolsonaro. Isso os aproxima de “homens de bem” como os irmãos Brazão,
Fabrício Queiroz, Ronnie Lessa, Roberto Jefferson, Daniel Silveira, Allan dos
Santos, Eduardo Pazuello, Braga Netto, Augusto Heleno, padre Kelmon. Uns,
acusados de tentativa de golpe; outros, de fraude e corrupção; e ainda outros, de
assassinato, mesmo.