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Mediação em exposições de Artes Indígenas e novos epistemes: das Artes Indígenas no Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento ao Museu de Culturas Indígenas

César Augusto Sartorelli [1] 

fonte: https://www.revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2024/19671-mediacao-em-exposicoes-de-artes-indigenas-e-novos-epistemes-das-artes-indigenas-no-brasil-500-mostra-do-redescobrimento-ao-museu-de-culturas-indigenas.html

Pensando na exposição como um dispositivo de comunicação, de acordo com Jean Davallon, o papel do mediador no trabalho educativo é de extrema importância para esclarecer e enriquecer o visitante sobre a narrativa que a curadoria através da expografia construiu no espaço. Neste contexto comento um pouco sobre o educativo para exposições de artes indígenas, usando como ponto de partida a exposição de Artes Indígenas no edifício da Oca no Parque Ibirapuera na cidade de São Paulo, dentro da Exposição Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento em 2000. Usaremos como base das reflexões pesquisa de historiografia de exposições nos arquivos Wanda Svebo da Bienal Internacional de São Paulo e periódicos da época, associada à entrevista realizada em 06 de abril de 2024 com Carolina Suarez Copa Velasquez, que iniciava sua carreira na mediação e foi monitora no educativo desta exposição. Os Curadores das Artes Indígenas da Brasil + 500 foram a antropóloga e museóloga Lúcia Hussak van Velthem e José António Braga Fernandes, estudioso de arte visuais e da antropologia. Seus perfis caracterizaram como se construiu a narrativa desta Mostra, em que sob o recorte antropológico se observam as artes indígenas como aderentes aos conceitos de autonomia da arte de vanguarda e sua trajetória no século XX e na relação arte e vida na arte contemporânea. Havia a elevação da arte indígena do patamar do artesanato para o de obra plástica. Porém não havia a participação dos povos originários cuja arte era retratada na concepção da exposição, e tampouco na formação dos monitores que segundo Velasquez “se dava através de palestras enormes de 3 a 5 horas com especialistas antropólogos e arqueólogos”. Ela ressalta que existiam duas exceções que quebraram essa ausência de protagonismo indígena: “o trabalho da Ong Video nas aldeias, onde se percebia esse protagonismo em vídeos realizados pelos próprios; e as armadilhas – objetos para caça de peixes – com sua concepção e execução que envolve ritos secretos e materiais do bioma, os quase tive a oportunidade de conhecer.” E acrescenta que “por fim cabe ressaltar que a exposição do Manto Tupinambá em 2000 trouxe uma consequência não prevista pela expografia, dando início a um movimento que culminou com o trabalho de Jocélia Tupinambá, com o retorno de um deles ao Brasil e a recuperação de sua execução”. Hoje Carolina é consultora de mediação do Museu das Culturas Indígenas, aberto em 2022 na cidade de São Paulo, gerido por uma parceria entre Organizações sociais e o governo do Estado de São Paulo, compartilhada e com protagonismo do Conselho Indígena Aty Mirim composto por lideranças de diversos povos indígenas do Estado, o que a faz um elo de ligação entre a visão da época do Brasil + 500, ainda sem o protagonismo indígena e a atual, em que ele está se implantando. No Museu das Culturas Indígenas a mediação das exposições é realizada pelos Mestres dos Saberes dos povos originários. Esta transformação no protagonismo corresponde também a um processo pessoal pelo qual passou Carolina, porque em suas palavras “tenho ancestralidade Quechua e Aymára, nações indígenas e andinas, sou filha de um exilado político, líder estudantil, boliviano, o que muito me marcou.” e que só recentemente conseguiu juntar neste trabalho no Museu, “num processo de retomada, de fazer parte como Nação Indígena, inclusive para os Mestres Indígenas me aceitarem dentro da equipe”. Ela construiu então durante dez meses de consultoria com 12 Mestres e quatro estagiários, definições do que é arte, mediação, curadoria pela perspectiva indígena, com a antropóloga Ana Estrela, responsável pelo educativo. Segundo Velasquez “foram longas conversas e discussões para definir em que medida os segredos dos Mestres das Etnias podiam ser revelados, e quais não podiam”. Porque nas artes indígenas, assim como em qualquer manifestação de suas culturas, existe uma relação intrínseca entre o mundo espiritual e o cotidiano. E também foi preciso na mediação dos Mestres “uma adequação da sua alteridade para um equilíbrio com o público não indígena na exposição dos elementos culturais/cosmológicos que compõe as exposições e atividades do Museu das Culturas Indígenas”. Ressalta, porém, ser um processo de“aproximações e tentativas que estão sendo feitas visando a utopia do bem viver tanto para os indígenas quanto para os não indígenas.”

Quando falamos em perspectivas pós-coloniais, de acordo com CASTRO-GOMEZ, o campo do simbólico e essencial na construção de novos epistemes, como se dá na mediação de exposições que atualmente se concretiza no Museu das Culturas Indígenas, ao trazer o universo mítico religioso pelos Mestres dos Saberes. E retomando 2000, nesta mesma direção parafraseando Gricélia Tupinambá, que afirma sobre o Manto Tupinambá em depoimento para uma palestra na UERJ em 2023,que ele é Encantado, e por sê-lo, conseguiu que os colonizadores o conservassem para que pudesse ser recuperada sua sabedoria hoje, porque provavelmente, tendo em vista a natureza frágil e orgânica de seus materiais, seria desfeito pela passagem do tempo.


[1] Doutor em Arquitetura pela FAU USP e Mestre em Ciências da Religião pela PUC SP. Professor da UNIP (Universidade Paulista), desenvolve pesquisa sobre a historiografia das exposições no edifício da Oca no Parque Ibirapuera na cidade de São Paulo. Lançou pela Edições Sesc em 2019 o livro “Arquitetura de Exposições: Lina Bo Bardi e Gisela Magalhães”.


Referências

  • BASTOS, Felipe B. C. Resenha do livro poscolonialidad explicada a losniños. Santiago (2005). Revista Simbiótica, Vitória. vol. 5, n. 1. jan.-jun., 2018. Resenha da obra CASTRO-GOMEZ, Poscolonialidad explicada a losniños. Popayán:Editorial Universidaddel Cauca, 2005. Disponível em:https://periodicos.ufes.br/simbiotica/article/view/20513. Acesso em: 27 de abril de 2024.
  • DAVALLON, Jean. L ‘exposition à l ‘ouevreStratégies de communication et médiation symbolique. Paris, França, L” Harmattan, 1999.
  • CARVALHO, Mário César.Índios animaram contemporâneos, diz. Antropólogo. Entrevista com José António Braga Fernandes Dias. Folha de S. Paulo, São Paulo, 11 de maio de 2000. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fol/cult/ult11052000056.htm>. Acesso em: 27 de abril de 2024.
  • Entrevista com Carolina Saurez Copa Velasquez em 06 de abril de 2024.
  • Site Video nas aldeias: <http://www.videonasaldeias.org.br/2009/>. Acesso em: 27 de abril de 2024.
  • Site do Museu das Culturas Indígenas: https://museudasculturasindigenas.org.br/. Acesso em: 27 de abril de 2024.
  • TUPINAMBÁ. Gricélia e PERA, Renato (org.).Gricélia Tupinambá.Seminário realizado no IART/UERJ na Disciplina de graduação “Campo Ampliado da Escultura”, em colaboração com o grupo de pesquisa “Imagens em Descompasso”, coordenado pela Profa. Analu Cunha (IART/UERJ) \ “YouTube”, 10/05/2023. 1 hora e 35min. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=IR0rZpUz2rs. Acesso em: 27 de abril de 2024.