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Polochon: conheça a divertida criatura criada por Lina Bo Bardi

Porco rosa de duas cabeças, a peça foi desenvolvida pela arquiteta como parte da cenografia do espetáculo de sucesso “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”

Por Yara Guerra

23/07/2024- fonte: https://revistacasaejardim.globo.com/curiosidades/noticia/2024/07/polochon-conheca-a-divertida-criatura-criada-por-lina-bo-bardi.ghtml

O Polochon (1,70m x 0,9m x 0,9m) usado na primeira montagem de ‘Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes’, que ficou três anos em cartaz, rodou o mundo – primeiro em festivais internacionais de teatro e posteriormente com uma exposição sobre a obra de Lina Bo Bardi. Hoje, está todo remendado devido ao seu intenso currículo — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek

No portfólio repleto de maravilhas assinadas por Lina Bo Bardi está o Polochon, um porco rosa de duas cabeças – ou melhor, dois “furicos” – desenvolvido exclusivamente para a cenografia de “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”, peça do grupo Teatro do Ornitorrinco adaptada sobre o texto original “Ubu Rei”, de Alfred Jarry.

Curioso, provocativo e cômico, o Polochon se tornou não somente um emblema da obra de Lina como também símbolo do sucesso da montagem, que debutou em 1985 e foi vista por mais de 350 mil pessoas, no Brasil, na Espanha, na Alemanha, na Colômbia, na Itália e no México.

Lina Bo Bardi e a cenografia de UBU

Victor Nosek, com quem conversamos para esta matéria, trabalhou com Lina Bo Bardi por 10 anos e foi assistente de realização da peça “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”, montada pelo grupo Teatro do Ornitorrinco a partir do texto original de Alfred Jarry.

Victor também já trabalhava com o ator Cacá Rosset – fundador do Teatro do Ornitorrinco – e, na ocasião da montagem da peça, estava trabalhando junto a Lina no Sesc Pompeia. Ele, então, a convidou para assinar a cenografia da peça, que, como o resto do espetáculo, exprimia inteligência e humor.

Havia pouquíssimos elementos de cenografia no espetáculo. Por exemplo, atores seguravam placas para indicar que, ali, era um palácio. “Melhor que um trambolho cenográfico”, diz Victor.

A própria Lina abordou essa questão ao receber o Prêmio Mambembe Cenário e Figurinos, em 1985. Segundo ela:

“Agradeço o Júri pelo prêmio a mim atribuído. Na realidade, o público pode perguntar: ‘que cenografia é esta onde não tem nada?’ A este ponto, eu cito Lautréamont: ‘a arte deve ser feita por todos e não por um só’. O teatro é a vida e na ausência de dados ‘pré-estabelecidos’, uma cenografia ‘aberta’ e despojada pode oferecer ao espectador a possibilidade de ‘inventar’ e ‘participar’ do ‘ato existencial’ que representa um espetáculo de Teatro. Assim nasceram a ‘neve’, o jantar sem nada, o Palácio que não existe, os pequenos paraventos laterais. Tenho certeza que Jarry teria gostado. Num certo sentido, a cenografia tradicional é o contrário da arquitetura e a ausência de ‘cenografia’ é, como dizia Walter Gropius, pura arquitetura. Agradeço o Júri por ter compreendido tudo isso”.

O Polochon

Imaginado por Alfred Jarry, o Polochon foi materializado por Lina Bo Bardi para compor a cenografia do espetáculo "Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes" — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek
Imaginado por Alfred Jarry, o Polochon foi materializado por Lina Bo Bardi para compor a cenografia do espetáculo “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes” — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek

Polochon (ou Porco-chon) é uma criatura rosa cujo formato lembra um porco, mas na qual os dois extremos fazem referência à bunda. Descrito pela primeira vez pelo dramaturgo francês Alfred Jarry em 1885, o personagem foi materializado pela arquiteta brasileira exatamente cem anos depois, a convite do Teatro do Ornitorrinco, para a cenografia da montagem brasileira de “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”.

A peça de Lina mede aproximadamente 2 m³ (dois metros de comprimento por um de altura) e é composta por madeira, espuma, tecido e rodinhas nos pés.

Polochon recebia o público no saguão do teatro, era conduzido pelo ator José Rubens Chachá e subia ao palco através de uma rampa projetada por Lina. Então ele permanecia no proscênio, onde era apresentado aos espectadores.

“O Chachá apontava para o Polochon e o público não entendia o que era, até que o ovacionavam. Era uma espécie de triunfo do nonsense, a infância que o Jarry trazia”, conta Victor.

Rosi Campos, Victor Nosek, Cacá Rosset, Rui Flindas, Christiane Tricerri, Felipe Matsumoto, José Rubens Chachá e o Polochon 2 no lançamento do livro "Peludo", que narra a trajetória do Teatro do Ornitorrinco, em 2009 — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek
Rosi Campos, Victor Nosek, Cacá Rosset, Rui Flindas, Christiane Tricerri, Felipe Matsumoto, José Rubens Chachá e o Polochon 2 no lançamento do livro “Peludo”, que narra a trajetória do Teatro do Ornitorrinco, em 2009 — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek

Para entender melhor o papel do Polochon, é preciso também entender o que propunha “Ubu Rei”. A história da peça é uma paródia de “Macbeth” e algumas partes de “Hamlet” e “Rei Lear”, de Shakespeare. Basicamente, trata das peripécias do protagonista, Pai Ubu, que incentivado pela Mãe Ubu, mata o rei da Polônia e coroa a si mesmo.

Pai Ubu é ambicioso, covarde e irracional, uma crítica mortal de Jarry para o autoritarismo. Algo interessante é que o desenvolvimento da personagem se deu a partir de várias sátiras contadas, no final do século 19, pelos alunos no Liceu de Rennes (onde o dramaturgo estudou) sobre o professor de física Félix-Frederic Hébert.

Primeiro mini polochon (16,5cm x 9cm x 9cm) de resina produzido em 1993 por ocasião da abertura da exposição sobre Lina Bo Bardi no Masp, um ano após a morte dela. A peça foi produzida por Marcia Benevento, que também desenvolveu os demais Polochons existentes sob indicação da arquiteta — Foto: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 2023 / Divulgação
Primeiro mini polochon (16,5cm x 9cm x 9cm) de resina produzido em 1993 por ocasião da abertura da exposição sobre Lina Bo Bardi no Masp, um ano após a morte dela. A peça foi produzida por Marcia Benevento, que também desenvolveu os demais Polochons existentes sob indicação da arquiteta — Foto: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 2023 / Divulgação

Existem várias obras importantes de Jarry publicadas no Brasil. Embora a maior parte esteja esgotada, é possível encontrar algumas edições usadas. Recentemente, “Ubu Rei” foi reeditada pela editora Ubu com tradução dos irmãos Bárbara e Gregório Duvivier – trabalho que recebeu, em 2022, o prêmio Jabuti pela Produção Editorial.

Polochon é justamente uma das figuras da peça. A sua narrativa simbolista inaugura o teatro moderno e inspirou as vanguardas modernistas, bem como artistas como Picasso, Miró, Le Corbusier e tantos outros.

Desenhado por Lina, o Polochon foi produzido duas vezes, uma para cada montagem do espetáculo do Teatro do Ornitorrinco – a primeira em 1985 e a segunda em 1996.

A exposição "Arquitetura e…" na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1989 foi a primeira e única exposição em vida de Lina Bo Bardi. A arquiteta fez questão da presença do Polochon. Em primeiro plano, vemos Victor Nosek caminhando junto à Lina, que está de braços dados a Marcelo Ferraz e, logo atrás, o Polochon original usado na peça do Teatro do Ornitorrinco — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek
A exposição “Arquitetura e…” na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1989 foi a primeira e única exposição em vida de Lina Bo Bardi. A arquiteta fez questão da presença do Polochon. Em primeiro plano, vemos Victor Nosek caminhando junto à Lina, que está de braços dados a Marcelo Ferraz e, logo atrás, o Polochon original usado na peça do Teatro do Ornitorrinco — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek

Após a primeira temporada, o porco cenográfico viajou ao redor do mundo com uma exposição sobre a obra de Lina Bo Bardi e, depois disso, “morou” na Casa de Vidro entre 2001 e 2021.

Já o Polochon 2 é menos viajado: foi criado para substituir o primeiro, que itinerava com a exposição, na ocasião da segunda montagem de “Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”.

Em 2019, esta segunda versão foi exposta na mostra A Burrice dos Homens, na Bergamin & Gomide Gallery. Posteriormente, foi adquirida para a galeria Ulysses de Santi, em Los Angeles (EUA).

Outras versões do Polochon

Além dos dois Polochons que participaram das montagens de Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes”, outras versões foram produzidas.

Quarenta cópias do mini Polochon foram produzidas em 1993 por ocasião do projeto "Lina Bo Bardi", composto pela exposição, o poster, o livro e o documentário sobre a obra da arquiteta — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek
Quarenta cópias do mini Polochon foram produzidas em 1993 por ocasião do projeto “Lina Bo Bardi”, composto pela exposição, o poster, o livro e o documentário sobre a obra da arquiteta — Foto: Arquivo Pessoal / Victor Nosek

Quarenta miniaturas fizeram parte do projeto “Lina Bo Bardi” lançado em 1993, organizado pelo arquiteto Marcelo Ferraz e composto pela exposição, pelo poster, pelo livro e pelo documentário sobre a obra da arquiteta. Um desses mini Polochons está na icônica mesa de mosaico de mármore do Instituto Bardi.

Mas há também versões maiores. Em 2020, a Carbono Galeria decidiu celebrar os 35 anos do Polochon com a produção de 35 exemplares comemorativos e exclusivos para venda, cuja renda é revertida para o Instituto Bardi.https://www.instagram.com/p/CIRPnFmsMw8/embed/?cr=1&v=12

Os porcos da Carbono Galeria foram desenvolvidos também em resina na escala 1:4 a partir de escaneamento 3D do original de Lina. Ademais, a caixa de madeira que acompanha e acomoda a edição foi inspirada nos desenhos do mobiliário de Lina. Atualmente, há um último Polochon disponível para venda na galeria e o valor é de R$ 15 mil.