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LINA BO BARDI – por Carlos Bento Company

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No purgatório da dúvida, onde se entra o paradoxo de tantos arquitetos, Lina Bo Bardi (Roma, 1914-Sâo Paulo, 1992) soube encontrar sua matéria-prima. A italiana desembarcou racionalista no Brasil de 1946 e se encontrou perante a escassez de meios desse país para se tornar uma projetista capaz de transformar não as cidades mas a vida dos cidadãos. Com sua própria evolução pessoal, encontrou um caminho para a humanização da arquitetura moderna, fazendo-a absorver as imperfeições, a cultura local, a passagem do tempo e a pegada dos seres humanos.

O paradoxo desta arquiteta total – que idealizava desde o programa até o edifício passando pela mobília – é que a sua obra tende a desaparecer, deixa-se devorar pelos usuários. É por isso que a sua contribuição é um modelo tão atual. Qual foi essa contribuição? Barry Bergdoll, comissário de arquitetura e design no MoMA, fala dela como uma “estrela póstuma da arquitetura” cujo legado não é um vocabulário, mas uma atitude: uma tentativa de humanizar a disciplina e, já agora, de socializar a cultura. Aquele não arrogante, coletivo e popular que Bo Bardi defendeu no final da sua vida foi uma conquista pessoal. Aos 60 anos ela tomou o poder transformador que os projetistas modernos reclamaram para si, mas que só conseguiram implantar entre uma elite cultural dentro da própria elite económica. A transformação pessoal e profissional desta arquiteta anda de mãos dadas, por isso é tão oportuno o livro que o professor Zeuler R. M. De A. Lima publicou na Yale University Press. A biografia mais completa até hoje indaga em todas as arestas – e contradições – da projetista para desenhar com mais dados do que opiniões a história de um convicto e sua tradução em edifícios. Uma arquitetura de obrigação cívica, construída com formas e materiais simples mas capaz de enriquecer a vida, a cultura e as relações entre as pessoas é o seu legado.

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Seus inicios na Roma de 1914 foram turbulentos. A mãe de Lina tinha crescido na prisão porque a avó tinha tentado matar o marido. Como resultado, a futura arquiteta e sua irmã Graziella tiveram uma mãe medrosa que incutiu nelas o papel de uma mulher doméstica forte e produtiva. O pai, pequeno construtor, era um pintor amador. E a escola onde as meninas foram educadas tinha vista para a Villa Torlonia onde Mussolini viveu quase duas décadas. Nesse quadro, Lina tornou-se arquiteta “quando nada era construído e apenas destruído”. Por isso, quando ele tinha 24 anos defendeu seu projeto de final de carreira (uma maternidade) teve que vestir o uniforme fascista que lhe emprestou um colega de turma. Com o tempo, rebaptizaria esse projeto como “um hospital para mães solteiras” numa tentativa de enraizar sua vontade de mudança. O passado desse roço fascista – no seu caso conjuntural – levou alguns historiadores a questionar a sua subsequente filiação comunista e a mistura de ambos ilustrou, para outros, uma ideologia acomodatícia. Em sua nova biografia, Zeuler Lima mostra que Lina descobriu logo as falsas promessas do fascismo. Foi amante do arquiteto favorito de Mussolini, Marcello Piacentini, 34 anos mais velho que ela, e crítica ao seu estilo imperialista. Assim, sua cidade natal lhe incutiu a ideia de que as mudanças precisam não de reformas, mas de revoluções. E ela começou a dela quando, aos 25 anos, foi para Milão morar com o namorado, Carlo Pagani. Tornou-se jornalista. Ambos assinaram artigos sobre casas burguesas e, ao mesmo tempo, reivindicações da arquitetura anônima tirando ideias e plagiando textos de livros como In Search of a Living Architecture de Albert Frey. Essas bandas constituem a sua primeira formação. Faltavam sete anos para se tornar Lina Bo Bardi.

“Nunca quis ser jovem, sempre quis ter uma história”, declarou quando mais velho. Em 1943, Gio Ponti, o arquiteto diretor da revista Domus, enviou-a para entrevistar Pietro Maria Bardi. O negociante conseguiu dirigir a Galleria di Arte di Roma graças à sua aproximação ao círculo de Mussolini. Assinou também o relatório para il duce no qual aconselhava construir arquitetura moderna e virar as costas aos academicismos. 14 anos mais velha que Lina, Bardi abriria as portas para uma nova vida. Distanciado do ditador, o galerista vivia em um “purgatório político” que o levou a procurar trabalho no Brasil. Abandonou mulher e duas filhas e pediu ao amante para ir com ele. Quando embarcou com 32 anos, Lina Bo quebrou definitivamente a concha e começou a jornada que a levou a encontrar valores próprios e um discurso profissional.

Seu primeiro emprego, sua própria casa, a Casa de Vidro de 1949 no Morumbi, no sul de São Paulo, foi um último coeta da modernidade europeia que trazia consigo a arquiteta. Quando percebeu que no Brasil do final dos anos quarenta não havia classe média ficou claro que entre proprietários e pessoas iam escolher as pessoas. Sua arquitetura é fruto dessa decisão, de querer relacionar arquitetura e vida. Mas fazê-lo não foi fácil. Em 1943, a exposição do MoMA Brasil Builds (que para Nelson A. Rockefeller estava interessado em organizar por razões mais geopolíticas do que arquitetônicas) retratava a vontade dos arquitetos locais de construir uma identidade moderna e cosmopolita. A escolha de Bo Bardi do local, das raízes e da vida cotidiana fez com que projetistas brasileiros como Niemeyer desconfiassem dela. Eles não viam progresso nas suas intenções. No entanto, quando, décadas mais tarde, quando o centro social SESC Pompeia foi inaugurado em São Paulo, Bo Bardi deixou claro o quão política a arquitetura pode ser, como a modernidade pode empobrecer um país em desenvolvimento e como a cultura popular pode celebrar e denunciar ao mesmo tempo.

Foi na mestiça Salvador da Bahia que ele se convenceu disso. Lá fez os seus primeiros trabalhos públicos – restaurações e cenários – e também os últimos – o restaurante Ladeira da Misericórdia (1988) com o forjado furado para deixar a manga viver. No entanto, demonstrou suas ideias com sua primeira grande obra, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), a maior estrutura portante do país, capaz de unir arte e praça pública. Durante as obras, instalou lá o seu escritório e foi perturbando o prédio tentando resolver os problemas com que se encontrava. Assim, sua característica cor vermelha é o resultado de falhas do concreto original. Quando rachou e soube que tinha que cobrir, a arquiteta decidiu sublinhar essa cobertura pintando-a de vermelho. Em 7 de novembro de 1968, a Rainha Elizabeth II da Inglaterra inaugurou um museu no qual a história da arte se mostrava sem hierarquia e sem paredes, entre suportes de vidro apoiados em cubos de concreto. “Minha intenção foi destruir a aura que rodeia os museus”, disse Bo Bardi. Tinha-os reinventado como espaços públicos uma década antes da inauguração do Pompidou de Paris.

Lima conta que Bo Bardi teve que renegociar sua identidade como estilista. E é verdade que decidiu que a cultura não deveria ser elitista, mas acessível. E trabalhou para provar isso. A filosofia de seu admirado Gramsci surgiu no artesanato e no idealismo do paulista SESC (Serviço Social do Comércio) Pompeia (1986), um conjunto que transformou silos e uma antiga fábrica no centro social de um bairro operário. A rudeza do concreto furado com a célebre janela Bo Bardi (um buraco irregular) ventila as pistas esportivas que se empilham no recinto. Talvez por isso, quando a UNESCO recomendou trabalhar com concreto apenas a norte do equador (o resto deveria fazê-lo com adobe) Lina Bo protestou.

Engenhosa, aventureira e política, Lina Bo Bardi foi algumas vezes mitificada, outras detestada. Que termos opostos possam definir a mesma obra é paradoxal. Que ajudem a entender uma pessoa explica a validade e a vitalidade do legado Bo Bardi. “Sua vida não explica seu trabalho, mas tornou isso possível, desenvolveu um processo de renovação contínua”, escreve Zeuler Lima. No final dos seus dias, quando aos 74 anos, três antes de morrer, inaugurou sua primeira exposição monográfica em São Paulo, ela própria deixou claro: “Eu não me fiz sozinha”.

FONTES: – Anatxu Zabalbeascoa “Ao resgate de Lina Bo Bardi”. Babelia. O país.

– Lina Bo Bardi. Zeuler RM de A. Lima. Yale University Press, New Heaven/ Londres